Isso incomoda-me | as cinco coisas que me incomodam neste momento

Há umas semanas atrás estava a conversar com o meu marido sobre um assunto qualquer e ele achou imensa piada com a minha resposta ao que ele tinha acabado de dizer. Eu respondi-lhe “isso incomoda-me”. Depois dessa nossa conversa, e de nos termos rido com o meu ar emproado a dizer essa expressão, dei por mim a usá-la com alguma frequência. Possivelmente já a usava antes, mas só desde esse momento tomei mesmo consciência do que me incomoda.
Incomoda-me o facto de quase metade do meu dia ser dedicado ao trabalho. Em primeiro lugar, quero deixar claro que adoro o que faço, adoro a minha profissão e adoro os meus alunos; mas há imensas outras coisas que adoro fazer e para as quais não tenho tempo nem paciência depois de um dia cheio de trabalho. Isso incomoda-me.
Incomoda-me o frio do inverno. Eu sou uma mulher do verão, nascida em julho e com uma paixão pelo sol, pelo mar e pela água que só pode significar que fui sereia quando esses seres habitavam a Terra (!). Sofro com o frio como não sofro com o calor, independentemente de quantas camadas de roupa vista, seguindo os conselhos do SNS. Em cada dedo do pé tenho uma frieira, sendo que um dos dedos parece que levou uma martelada de tão vermelho e brilhante que está. Com o frio não me apetece trabalhar, não me apetece sair para passear, só me apetece estar enrolada numa manta quentinha a beber chá e a ver uma boa série de televisão (ler, não, porque tenho de ter as mãos do lado de fora da manta). Isso incomoda-me.
Incomoda-me o medo. Eu tenho medos, como qualquer ser humano, mas os medos que me incomodam são aqueles que nos insistem em incutir através dos meios de comunicação social. Deixei de ver noticiários, sou agora uma ignorante no que toca a notícias, porque de cada vez que os via, percebia a forma como cultivam os nossos medos: o medo da insegurança, da fome, da morte, do sofrimento, … Fazem com que cada pessoa que encontramos na rua passe a parecer um inimigo, fazendo com que deixemos de confiar. De conhecer pessoas. De nos darmos ao outro. E isso incomoda-me.
Incomoda-me o preço dos livros em Portugal. Desde criança que fui habituada a ler. Liam para mim e quando aprendi comecei a ler para mim própria. Tenho imensos livros, ofereço livros, compro, troco e vendo. Os livros são para mim os Xanax e a cafeína que preciso para funcionar bem. Uma nação que cria Planos Nacionais de Leitura, para promover a leitura desde a mais tenra idade, devia baixar os impostos para que os livros fossem acessíveis a todos. Pais que não lêem não habituam as suas crianças a ler. Crianças que não lêem tornam-se adultos não leitores, com uma perspetiva muito limitada do mundo. E isso incomoda-me muitíssimo.
Incomoda-me sentir-me incomodada. Porquê? Porque isso me impele a agir, a ter que fazer alguma coisa relativamente ao que me incomoda. Isso faz-me sair do meu espaço de segurança, do meu umbigo, e isso é mesmo muito bom. A maior parte das coisas que fiz na minha vida foi em resposta a coisas e pessoas que me incomodavam e graças a isso cresço um pouco todos os dias. Podia escolher não agir, não fazer aquilo que acho certo. Mas isso sim, isso incomodar-me-ia muito, mesmo muito.

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