A cidade e o campo | olhares sobre o mundo

Havia, há muito tempo, um rato do campo e um rato da cidade que eram amigos. Quando o da cidade visitou o do campo, achou tudo muito simplório e abaixo do que ele estava habituado. Por sua vez, quando o rato do campo visitou o da cidade, gostou do que viu, mas não apreciou o facto de ter de se submeter a inúmeros sustos e perigos para poder desfrutar de toda a abundância do primo. A história termina com uma “moral” que defende que é melhor viver pobre e seguro do que rico e com perigos.
Nasci numa cidade que foi crescendo ao longo dos anos e se foi tornando cada vez mais cidade metrópole de Lisboa e menos cidade da província. Os 90 quilómetros que a distanciam da capital passaram a fazer-se em 45 minutos em vez dos 90 quando eu era criança, o que transformou tudo. Muitos lisboetas passaram a viver ali e muitos habitantes da minha cidade passaram a trabalhar em Lisboa. O preço do progresso e o crescimento das oportunidades de trabalho assim o decidiram, supostamente, para o bem de todos. Na minha antiga cidade, gosto da vida nas ruas, no mercado a céu aberto que convida a comprar fruta e legumes frescos todos os dias, do parque imenso que nos faz esquecer que estamos no meio da cidade.
Por razões profissionais, há cerca de quinze anos, vi-me transportada para uma das zonas mais rurais do país, o Alentejo. Primeiro o litoral, de espírito aberto com as inúmeras comunidades de estrangeiros a pontilhar a paisagem e a influenciar as mentes, depois o interior profundo, com comunidades mais envelhecidas e arreigadas nos seus costumes, mas com uma abertura para as artes e para a própria comunidade que me impressionou. Na minha cidade no campo, gosto dos piqueniques na primavera, na possibilidade de caminhar cinco minutos e estar envolvida por campos de papoilas ou montados, de bater à porta de qualquer vizinho e saber que sabem quem sou.
Inicialmente um ratinho de cidade, tornei-me um ratinho de campo, quase de um dia para o outro. No entanto, presentemente considero-me um ratinho de campo cosmopolita – preciso de algumas coisas que a cidade me dá para que a minha vida no campo seja vivida em pleno. Visito, esporadicamente, uma grande cidade, não para as compras – porque felizmente a internet dá-nos imensas oportunidades – mas para beber a vida cosmopolita e inspirar-me para a minha escrita. Não dependo de Lisboa para concertos, porque na minha nova cidade-campo há inúmeros concertos e espetáculos por ano de excepcional qualidade; mas dependo dela para me preencher as veias com o bulício dos turistas a comer pastéis de Belém ou com o belíssimo atendimento de um hotel boutique.

Viver na cidade é bom. Viver no campo é bom. O que é preciso é saber viver e saber florescer no local onde estamos plantados.    

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s