The Really Terrible Orchestra, ou como fazer algo muito mal desde que seja divertido

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fotografia de Ludgi Fotógrafos

Sou uma perfeccionista convicta, confesso. Tenho a mania de fazer tudo da melhor maneira possível e não me contento com pouco. Sou exigente comigo, com a família, com os alunos, com tudo. Espero o melhor de cada um porque dou o melhor de mim.

Quantas vezes já desisti de fazer alguma coisa porque não a estava a fazer de forma… perfeita! Uma amiga minha diz que isso é porque apesar de ser do signo caranguejo, supostamente preguiçoso e pouco interventivo, tenho o ascendente em virgem, o que me dá um sentido de ordem, organização e perfeição que a partir dos trinta anos se revelou… muito presente!

Há alguns meses, estava a ler um livro do Alexander McCall Smith, The Sunday Philosophy Club (que apesar de se chamar o Clube de Filosofia de Domingo, tem como tema central a resolução de um crime, e pouco fala do clube de filosofia) e deparei-me com uma história muito interessante. Uma das personagens fazia parte de um grupo musical intitulado The Really Terrible Orchestra (A Orquestra Verdadeiramente Terrível) onde todos os elementos eram maus ou medíocres. Mas o importante era o seguinte:

“O concerto foi terrível. Não prestamos para nada, mas divertimo-nos imenso.”
O amigo disse-lhe, “Desde que estejam a dar o vosso melhor”.
“Exatamente. E o nosso melhor, temo dizer, não é muito bom.”
No final de um concerto, a orquestra ofereceu vinho e sanduíches a quem assistiu. O maestro explicou nas suas afirmações finais, “É o mínimo que podemos fazer por vocês. Foram tão tolerantes.”

Há alguns dias, ao investigar para este post, descobri que a orquestra existe mesmo, em Edimburgo, e o escritor é um dos seus membros. Se a ideia, quando estava apenas no mundo virtual da literatura, me fascinou, então quando passou a fazer parte do mundo real passou a ser um exemplo a seguir. Esta orquestra é o epíteto da imperfeição. Os seus membros podem não saber muito (ou nada) de música, mas participam ativamente porque gostam de música, gostam de tocar e divertem-se imenso a fazê-lo. E melhor, há quem goste da sua música!

Numa altura em que a perfeição é algo que parece obrigatório, ser “mais ou menos” ou “bom o suficiente” não nos basta, mas devia. O mundo à nossa volta mostra, pede e exige perfeição. Eu sou terrível, nesse aspeto, porque por ser considerada “imperfeita” devido ao facto de ser portadora de deficiência, pareço procurar a perfeição em quase tudo o que faço, como se isso servisse para “compensar” a deficiência. Tenho vindo a aprender ao longo da vida que a perfeição está em sermos a nossa melhor versão e essa versão de mim, neste momento, está a ganhar. E está perfeita.

Não canto perfeitamente, mas adoro cantar. Nunca ganhei um prémio Pullitzer (ou da Sociedade Portuguesa de Autores), mas adoro escrever. Não tenho fotografias publicadas na National Geographic, mas adoro fotografar. O que me impede de fazer estas atividades mais publicamente? Não ser perfeita? Muito provavelmente. E impedir-me de ser feliz, amplamente feliz a fazer coisas que gosto, não será isso ainda mais terrível do que ter a hipótese de ser imperfeita?

Pegando no exemplo da Really Terrible Orchestra, convido-me a ser terrivelmente imperfeita e feliz a cada dia. E tu? Já te atreveste a ser feliz hoje?

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