Uma escola feliz

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Quando era criança não gostava da escola. Entrei, cheia de entusismo, com cinco anos para o que se chamava a Escola Primária e lembro-me da primeira coisa que fiz. A professora pediu o lápis preto. Eu procurei nos lápis de cor e mostrei o lápis preto. Não é esse, disse-me, com voz ríspida, é este, e mostrou-me o lápis de carvão. Foi assim que começou um pesadelo de quatro anos.

Quantos de nós não tivemos professores que nos marcaram pela negativa. Eu tive-os, com certeza, mas também tive exemplos que me inspiraram como aluna e também como professora. Lembro-me, principalmente, da professora de Português do sexto ano, que nos incentivou a fazer leitura extensiva, quando na altura ainda não se fazia isso nas escolas. E da professora de Inglês do décimo segundo, que me fez querer muito viajar até Inglaterra e Estados Unidos e – finalmente – inspirou-me a ser professora de Inglês.

A profissão de professor – e a escola – são neste momento alvo de ataques por vezes muito feios. Os professores estão mortos, lia-se na porta da minha escola há uns dias. Os professores estão de férias a maior parte do ano. Os professores têm que. Os professores têm que fazer tudo. A escola tem que fazer tudo. E aqui, pergunto: quem é a escola? Numa reunião escolar há algum tempo atrás, uma representante respondeu a esta pergunta “então, a escola são os professores!”. Resposta errada: a escola somos todos nós.

Há algum tempo falei aqui sobre um livro que revelou um pouco do trabalho que se faz na Escola da Ponte. Esta semana comecei a frequentar uma ação de formação fora do meu horário de trabalho, que foi paga por mim e implica um trabalho sério e profundo, dinamizada por José Pacheco, o professor que “criou” a Escola da Ponte. Em simultâneo, encontro-me a ler um relato sobre a experiência e os projetos de César Bona, um professor espanhol, que foi candidato ao Global Teacher Prize. A escola precisa de mudar, claramente. Mas a escola somos todos nós: os alunos, os professores, o ministério da educação, os pais, os encarregados de educação, os municípios e mesmo toda a comunidade onde cada escola se insere.

A escola onde trabalho – e onde sou feliz – foi convidada a participar num projeto a nível mundial que poderá vir a transformá-la numa comunidade de aprendizagem. Este projeto implica a participação da comunidade – toda a comunidade – em atividades de sala de aula. A tão desejada entrada da comunidade na escola é agora uma realidade, mas que não se concretiza em pleno, porque quando se contactam os voluntários que se ofereceram para participar nas aulas, estes não estão disponíveis. Neste momento, a maioria dos voluntários que se estão a “apresentar ao serviço” são, mais uma vez, os professores, em horas que não estão nos seus horários, para garantir que este projeto, que promete o sucesso educativo, avance em pleno. Porque gostamos dos nossos alunos e queremos que sejam felizes e tenham sucesso escolar.

Os alunos podem gostar da escola e podem ser felizes na escola, é esse o nosso sonho. É para isto que trabalhamos. Acredito que cada um de nós faz o melhor que sabe e de que é capaz em cada momento – digo-o tantas vezes – e, como diz José Pacheco, temos que trabalhar com e não trabalhar contra as pessoas e as instituições para criar uma escola feliz e de sucesso.

Eu sou feliz na escola. Mas acredito que posso ser mais feliz ainda. Por isso, trabalho para isso (ainda há acredite que a felicidade não dá trabalho) e invisto em mim enquanto pessoa e enquanto professora. Porque faço parte da escola. Tal como os meus alunos. Tal como os encarregados de educação dos meus alunos. Tal como o senhor da barbearia e a senhora que me atende no supermercado. Porque todos fazemos parte de algo muito maior. E todos queremos – acredito – que as nossas escolas sejam mais felizes. Mas para isso temos que voltar à escola.

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