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Aprender a escrever

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Aos cinco anos entrei para a escola primária. A minha história pessoal poderia ser muito diferente, não tivesse eu frequentado a escola da Dona Elisa. Se me tornei professora foi, certamente, por ter sido aluna naquela escola, fechada num sótão no topo de um prédio antigo nas Caldas. Foi com a Dona Elisa que aprendi a ler e a escrever e desde que o aprendi, nunca mais parei de tentar melhorar essas duas bênçãos.

Num momento em que passo horas em casa, fechada mas com vista para o espaço comum dos prédios do meu bairro, vendo as crianças a brincar ao sol da primavera, que finalmente se deixou ver, os cães a rebolar na relva, ao mesmo tempo que dou aulas em videoconferência, verifico e comento as tarefas enviadas pelos meus alunos e tento manter-me sã, seguindo planos de treino enviados pelo meu treinador e pelo professor de Educação Física dos meus alunos. Mas isso não me chega. Preciso de mais. Preciso de ler e de escrever. Cada vez mais, esta é uma necessidade que me norteia.

Neste tempo de confinamento, muitas têm sido as pessoas que têm oferecido o seu tempo, os seus saberes, os seus sabores, de forma gratuita. Há aulas de culinária, aulas de dança, treinos diários de crossfit e de yoga, tudo isto à distância de um clique. Parece que um período que se previa tornar as pessoas mais fechadas, mais viradas para dentro de sim, menos cuidadosas com o outro, transformou-se numa fase de dádiva, de partilha, de aprendizagem e ensinamento.

Uma dessas pessoas é a Manuela Gonzaga. Tive a sorte (ou seria algo já traçado pelo destino?) de conhecê-la quando veio a Serpa apresentar o seu livro Variações e, como verdadeira stalker, comecei a segui-la no Facebook. Há algumas semanas, lançou, nesta mesma rede social, um repto: oferecia uma oficina de escrita gratuita para quem quisesse aventurar-se nestas lides. Inscrevi-me e tive a sorte de fazer parte de um dos grupos. Daí, saiu um pequeno conto, de seu nome Das Sombras para a Luz, que se encontra publicado no blogue da Manuela.

Das Sombras para a Luz

Fazer parte desta oficina de escrita foi – e ainda é, porque, como uma onda, os efeitos ainda perduram – uma experiência que me levou a refletir sobre a leitura, a escrita, a minha escrita e a forma como me coloco no mundo através da escrita. Nem todos somos “escritores”, dizem, mas cada um de nós é autor: da sua vida, daquilo que diz, daquilo que escreve. A Manuela ofereceu-nos a oportunidade de escrever um conto a partir de alguns aspetos pré-definidos (mas que não espartilhavam a narrativa), contos esses que teve a generosidade de editar, para que pudessem brilhar um pouco mais, mesmo na simplicidade de cada um. Para além das sessões síncronas, através de uma plataforma de videoconferência, pudemos conhecer-nos, partilhar experiências e ideias e, no final, sonhar juntos com a publicação em livro dos nossos contos. Se tal irá acontecer ou não, ainda não sabemos, mas não é isso o que mais importa. O que na realidade nos foi oferecido foi a oportunidade de escrever – foi-nos dado um motivo para escrever. Uma semente que permitimos, ou não, que floresça. Ao longo das semanas de escrita, essa semente foi regada com carinho e atenção pela Manuela, que, ao ver a flor já crescida, teve a amabilidade de podá-la, para que pudesse florescer em todo o seu esplendor.

Escrever este conto, Das Sombras para a Luz, levou-me por caminhos escuros, densos, mas também por clareiras iluminadas e abençoadas. Porque a vida é mesmo assim, o escuro precisa da luz, tal como o sol precisa da lua; para que se completem.

Reaprendi que para se escrever, tem que se ler. Ler todos os bons escritores, os clássicos e os menos clássicos. Ler o que gostamos. Ler os livros que nos apaixonaram na infância e na adolescência. Ler muito, muito, muito.

As oficinas de escrita oferecidas pelos escritores são uma bênção para quem gosta de escrever. Já tive o prazer de fazer outras oficinas de escrita, pela mão da Margarida Fonseca Santos e do João Tordo, dois autores que também muito admiro e que considero amigos, e em todas elas tenho sentido que cresço. O difícil é manter-me produtiva, continuar a acreditar que mereço escrever, mesmo que não seja escritora. Porque é através do que escrevo que me dou aos outros e que, simultaneamente, me vou conhecendo melhor.

Este mês de maio estou, mais uma vez, a tentar desafiar-me a cumprir o desafio Story a Day, criado pela Julie Duffy: escrever, durante trinta e um dias, a partir de um “encorajamento” diário. Porquê? Porque tempo para escrever é das melhores coisas que o confinamento me trouxe. Sempre tive tempo, vendo bem as coisas, mas só com estas condições me permito fazê-lo. Porque escrever me faz sentir viva.

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