One Story a Month | O Grito

A STORY A MONTH

Uma vez por mês, publico, no blogue, um conto inédito, escrito por mim. Este foi inspirado numa formação que estou a fazer com a Margarida Fonseca Santos, sobre Escrita Criativa. Peguei num conto de 77 palavras e “cresci-o” para se tornar neste GRITO mudo.

Chegou demasiado tarde. O tempo não esperara por si. Viu-a, com aquele ar de dama imperial, com os cabelos grisalhos esvoaçando ao vento, e sentiu uma dor que não conhecera antes. Perdera-a. Pela quinta vez. Se antes, tinham tido “todo o tempo do mundo”, como reza a canção, agora esse mesmo tempo tinha-se esgotado. Mais uma vez, outro chegara antes dele para aquietar o coração dela. E, mais uma vez, a sua impotência matou-o mais um pouco. Calou o grito que lhe devorava as entranhas e entrou no bar. Iria passar o dia a beber gin com limão, para amargar ainda mais o seu dia e, quem sabe, matar-se de dor. Ainda diziam que o amor faz bem.

One Story a Month | New year, new me, new you

ArturCorreia_ChamadoraTempestades

Acordara naquele dia com vontade de não se levantar. Já tinha lido um livro que a inspirara a fazer algo tão radical como não se levantar da cama durante um ano, mas desistiu da ideia assim que pensou na questão das idas (ou não) à casa de banho. O final do ano deprimia-a. Apetecia-lhe viajar, mas ao mesmo tempo queria ficar em casa. Sonhava estar com os amigos, mas ansiava igualmente pelos momentos solitários no sofá enrolada na manta de pelo sintético. A sua vida era uma canção do António Variações, em que só estava bem onde não estava, e isso não a ajudava a olhar o novo ano que estava quase a chegar com bons augúrios.

Saiu para a rua, vestida numa versão semi fato de treino com alguns apontamentos de casualwear. O dia invernoso convidou-a a parar no café da esquina da rua para beber um chocolate quente com um churro, mil e tal calorias que se lhe alojaram imediatamente na anca calipígias. Olhou de soslaio para o empregado, que coçou a barba comprida com ar guloso enquanto a mirava e tirava um latte fumegante para um qualquer cliente que, com certeza, se aborrecia com a espera e o barulho das conversas dos outros que adornavam o estabelecimento. Era cedo. Mas tão tarde para tanta coisa que gostaria de ter feito nesse ano.

Desceu até ao fundo da rua, onde podia vislumbrar o oceano antracite que ofegava, com as gaivotas que esvoaçavam em círculos, como abutres sobre carne acabada de morrer. Pressentiam a tempestade. Tinha sido um ano duro. Muitas perdas, muitos danos. Dores e dissabores. Amores e paixões sem sentido. Levantou os braços em direção ao céu cinzento debruado com laivos de algodão e gritou. Um grito nú e preenchido com todas as vivências do ano. Detestava o final de ano. Mas decidiu, naquele momento, que o novo ano seria um novo ano, uma nova oportunidade para si e para quem estivesse apto a entrar na sua vida.

Voltou a subir a rua em direção a casa. O barista de barba comprida fumava um cigarro ao lado da porta de serviço do café. Sorriu-lhe. Sorriu-lhe de volta. Feliz Ano Novo.

Este conto encontra-se abrangido por uma licença Creative Commons, ou seja, não pode ser usado sem referência à autora.


A fotografia que inspirou esta história, e que ilustra este post, foi generosamente cedida pelo Artur Correia. Visitem o seu portfólio. Vale a pena.

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