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Quatro razões para fazer uma limpeza de verão

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Verão rima com férias. Rima com churrascos, cerveja fresquinha, jantares com os amigos, viagens aos mais diversos locais, descanso, farra e muito tempo para descansar. Agosto é, habitualmente, o mês em que o país pára, em que os portugueses saem ou vão para fora cá dentro. Mais do que tudo, é uma altura para recarregar baterias.

Este ano, por razões de saúde da minha mãe, não pudemos ir de férias. As quatro semanas que tivemos para descansar foram passadas em viagens de e para o hospital ( a trinta e cinco quilómetros) para a visita diária e a organizar coisas de que a mãe precisava. No final das quatro semanas, a mãe teve alta clínica, apesar de estar completamente dependente naquele momento. Foi um momento de caos mental e emocional. Felizmente, existem anjos que são colocados no nosso caminho e que nos apoiaram (e ainda estão a apoiar) em todo este processo, ajudando a que tudo corra de forma fluida, apesar de ainda não ser o ideal.

Esta questão de saúde da mãe fez-me refletir sobre a vida, a morte, a presença, a ausência, o estado do nosso SNS, o estado da minha saúde; enfim, permitiu-me uma organização do meu espaço existencial, levando-me a refletir sobre o que é realmente importante na vida. O Verão é, habitualmente, um momento de descanso; este verão está a ser, para mim, um momento de limpeza. As limpezas da primavera mudaram-se para o verão e parece que anda um furacão cá em casa. Refira-se que as limpezas não estão a ser, propriamente, limpezas físicas (embora com a minha ajudante de limpeza doente, esteja a ser eu a garantir esse trabalho cá em casa), mas sim limpezas emocionais, limpezas kármicas, até.

Para que não seja necessário um caos familiar como impulsionador das limpezas de verão, eis algumas boas razões para fazer uma limpeza de final de mês de agosto.

UM: as férias dos miúdos estão a terminar (as suas, provavelmente, também) e o novo ano escolar está quase a rebentar. É um bom momento para doar tudo o que já não serve, o que já não quer na sua vida, o que está a mais, o excesso que a incomoda e a perturba. É uma boa dieta de final de férias.

DOIS: aquilo que era, há uns anos, importante para si, pode já não ser. Não acha que está na altura de aferir prioridades, de retraçar objetivos, de sonhar novos sonhos? Fazer uma limpeza de verão implica deitar fora tudo aquilo que já não faz sentido para si, para a sua missão de vida, para o seu sonho existencial. Se necessário, procure um coach (eu fiz isso mesmo há alguns anos atrás) e redefina a sua vida.

TRÊS: uma limpeza detox do corpo faz maravilhas pela mente. Com o stress da situação da saúde da mãe, dei por mim a alimentar-me de chocolate negro para ter energia para as obrigações do dia a dia. Finalmente, decidi banir essa muleta e alimentar-me de forma mais natural, recorrendo a legumes e frutas (biológicas sempre que possível) e ingerindo a quantidade de água adequada para mim (esqueça a teoria dos dois litros; cada pessoa é um caso diferente e consoante o peso e a atividade física que pratica necessita de mais ou menos água).

QUATRO: com a chegada do outono, há coisas que naturalmente vão alterar-se na sua vida. Vai ficar mais tempo em casa, vai passar inícios de tarde a ver uma série ou um filme, ou a ler um bom livro, vai aconchegar-se no sofá com uma manta felpuda a dormir uma sesta reparadora. Vai preparar-se para hibernar. E antes da hibernação há que preparar a estação fria, por isso uma limpeza da casa, do carro, do armário é essencial. Assim como da cabeça. Do espírito. Da alma. Para podermos acolher a nova estação da forma que ela merece.

É essencial saber parar, descansar, aceitar o que a vida nos traz e retirar alguma aprendizagem do que nos acontece. Nem tudo é positivo, mas com certeza podemos aprender alguma coisa importante que nos fará crescer enquanto ser humano. E curar karmas. E Ser.

 

 

 

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Dia da mãe (mesmo para quem não tem filhos)

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Hoje comemora-se, em Portugal, o dia da mãe. A minha mão recusa-se a celebrá-lo hoje; para ela, o dia da mãe continua a ser o dia oito de dezembro, feriado, dia de Nossa Senhora da Conceição (Nossa Senhora da Concepção). Eu celebro-o porque tenho a bênção de ainda a ter comigo, assim, acabo por celebrar as duas datas.

Lembro-me de celebrar esta data desde pequena. Na altura, na escola não fazíamos – como agora – presentes para o dia da mãe, por isso era o meu pai que me dava uma moeda de cem escudos (creio eu) para eu lhe comprar um presente. Invariavelmente, o presente era sempre o mesmo: um cato ou uma suculenta que eu comprava na praça da minha terra, a uma das floristas que aí passava o seu dia (também era mãe) para poder levar dinheiro para casa. Um dia a minha mãe fartou-se e disse que eu só lhe oferecia catos. Realmente, olhando para trás, não seria o melhor presente que eu lhe poderia dar, mas era o que eu achava que ela iria gostar – afinal era o que EU gostava! 😉

Dizem que ser mãe é a melhor coisa do mundo. É duro, é uma responsabilidade enorme, mas é, igualmente, fonte de extrema felicidade. Eu não sou mãe. Trabalho com (e para!) muitas mães, pois, como professora, passo a maior parte do meu dia com os filhos de outras mães. A maior parte do dia destes adolescentes é passada comigo. Partilhamos alegrias e tristezas, partilhamos sorrisos e lágrimas e partilhamos histórias de vida. Não sou mãe deles, nem ouso dizer que por passar mais tempo com eles do que os pais me sinto como mãe deles, por vezes. Sou mais a tia. Aquela tia que educa. Que ralha, mas abraça. Que ensina, mas brinca. Que ama, mas exige respeito. Que dá respeito e pede respeito. Eu sou, muitas vezes, a Alda Maria na vida dos meus alunos. Ou a Paula. Ou a Nã. Aquelas mulheres que, juntamente com a minha mãe, também foram minhas mães.

Eu não sou mãe. Mas acompanho os meus alunos ao longo das suas vidas, quer através de conversas com os pais ou, de uma forma mais moderna, através – literalmente – do Facebook. Preocupo-me com eles. Amo-os. Com eles, ultrapasso preconceitos que tinha. Aprendo a ser cuidadora. Aprendo que erro tantas vezes, como qualquer mãe erra. Que o faço por amor, porque quero sempre o melhor para eles. E que aprendo com os erros, os meus e os deles.

Eu não sou mãe. Mas sou tia. Agora sou tia a dobrar,  porque tenho dois sobrinhos lindos que, infelizmente, não vejo tanto quanto gostaria. Sinto que estou a perder oportunidades de criar laços mais fortes, mas isso será algo com que terei que lidar mais cedo ou mais tarde. Terei que fazer escolhas. Tecer prioridades.

Eu não sou mãe. Mas sinto-me um pouco mãe. Não mãe mãe, no sentido de ter gerado um filho biológico. Mas não minto quando digo que me sinto, por vezes, mãe adotiva daqueles que escolho para serem os meus filhos. Já tive alunos que senti como filhos, mesmo. Que quase cuidei como filhos. E que me chamam, ainda hoje, de mãe, sabendo , no entanto, que nunca tentei substituir as suas mães (eles também não o fizeram). E a sensação – o sentimento – é único.

Não sou mãe. Mas hoje celebro o dia da mãe. O dia da minha mãe, que me gerou, o dia das mães que, não podendo gerar biologicamente, tiveram a coragem de adotar e são tão felizes (conheço tantas!) e o dia daquelas mulheres que escolheram não serem mães. Porque na sociedade em que vivemos é muito difícil lidar com essa escolha, é muito difícil ver a sua escolha aceite pela maioria das mulheres (as que são mães). E celebro, igualmente, o meu dia enquanto “mãe” daqueles que me são colocados no caminho para eu acolher como filhos temporários. Não preciso que me ofereçam flores nem presentes; para eles, o meu amor é essencial e para mim, saber que cumpro a minha missão é o suficiente.

Feliz dia da mãe.

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Quando a vida te dá limões

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A primavera chegou há quase um mês, mas nem sempre os dias têm sido primaveris. Entrecortados por dias de sol, a chuva continua a marcar a sua presença lá fora, o que pode ser desagradável para quem quem desfrutar de um passeio ao sol, mas é muito positivo para a agricultura e para que todo o ecossistema funcione da forma que deve funcionar. Os limoeiros dos meus vizinhos têm andado carregados de lindos e sumarentos limões e à minha porta têm aparecido sacos cheios daqueles belos frutos amarelos, gritando para que eu os use de formas criativas e deliciosas.

Tal como a natureza, a vida acontece assim: dias muito bons, entrecortados por dias menos bons, dias que preferíamos que não acontecessem. Também cá em casa tem sido assim: num momento de final de período letivo em que estamos assoberbados de trabalho burocrático relacionado com a atribuição de classificações aos alunos, acresceu uma doença inesperada da minha mãe que nos deixou a todos com um sabor amargo na boca. A vida tem destas coisas, mas acredito que as coisas acontecem com uma determinada razão e temos que ser humildes para tentar compreender qual a mensagem que estes acontecimentos nos trazem.

Há a expressão muito comum que diz “quando a vida te dá limões, faz limonada”. Tenho aproveitado esta doença inesperada da minha mãe para passar mais tempo com ela, cozinhar para ela, cuidar dela. Não sou mãe dela, nem o quero ser, nem ela precisa que eu o seja. Preciso apenas de estar mais próxima. Por vezes, com o excesso de trabalho e o acumular de tantas atividades, perdemos o rumo do que realmente importa. É preciso parar e verificar – decidir! – o que realmente importa para nós.

Neste momento, importa-nos que a mãe recupere, que se cuide melhor, que se respeite nos seus limites. Que se ame e se deixe amar pelo que é e não pelo que faz. Que decida o que realmente é importante na sua vida e que deite fora o que já não lhe interessa. Que se permita crescer na sua maior plenitude. E que seja feliz!

Nesta Quaresma, quando a vida me trouxe estes limões, eu fiz limonada. E fui bebê-la com a minha mãe. E vou fazer bolo be limão. E vou comê-lo com os amigos. E vou espremê-los e adicionar gin e tónica. E vou bebê-lo com o meu marido. Porque os limões podem ser azedos, mas, se bem aproveitados, ensinam-nos a tornar a vida melhor.